Ser

Uma downlícia de brigadeiro

Conheça a história de Gabriel Bernardes, portador de Síndrome de Down que criou sua própria marca de doces

Por 2min
25 de fevereiro de 2020

Você certamente já ouviu muitas histórias de empreendedorismo. De alguém que começa um negócio com um objetivo em mente – no caso de Gabriel Bernardes de Lima, comprar o próprio carro. E assim, teve a ideia de fazer brigadeiros gourmet para vender por aí. Seria apenas uma história corriqueira, se Gabriel não fosse portador da Síndrome de Down.

Cozinhar faz parte da vida de Gabriel desde que tinha 10 anos. A mãe, Martha, precisava trabalhar para sustentar a família (o pai a abandonou quando o filho nasceu), e Gabriel ficava em casa com a irmã, dois anos mais velha. Ao sair, a mãe deixava o almoço pronto. Mas, curioso, o menino mexia na cozinha, revirava panelas. Um dia, na volta do trabalho, Martha encontrou uma bagunça: arroz, alho e cebola, crus, numa panela. Gabriel havia tentado fazer arroz.

Não tenho vergonha. Já fui modelo de cueca, numa campanha com o Bruno Gagliasso. Mas eu sou muito mais bonito

— Às vezes, chegava em casa e o forno estava quente. Aí percebi que não adiantava dar bronca, tinha que ensinar, ou ele ia acabar se machucando – explica Martha. – Depois, percebemos que isso daria autonomia para ele.

Foi o que aconteceu. Aos poucos, desenvolveu sua habilidade como mestre cuca, e hoje seu cardápio de brigadeiros tem os sabores Tradicional, Paçoca, Limão, Café, Menta, Prestígio, Doce de Leite com Coco Queimado, Leite Ninho, Leite Ninho com Creme de Avelã, Churros, Napolitano, M&M, Palha Italiana, Romeu e Julieta e Amarula. Gabriel lê e escreve. E sua produção é fartamente divulgada nas redes sociais. Gabriel tem o canal Downlícia (nome de sua empresa) no Youtube, com 10 mil inscrições. No Instagram são 67 mil seguidores, e no Facebook, 23 mil fãs.

Aos 23 anos, há três empreendendo, hoje é comum ver Gabriel a bordo de sua food bike, com seu dólmã e chapéu de cozinheiro, em eventos corporativos. Em alguns deles, saem 300 docinhos. O recorde foi de 700 num mesmo dia. O sucesso é tamanho que Gabriel contratou um amigo, Ricardo, para ajudar nas entregas. Cada brigadeiro sai a R$ 4.

Além de reforçar o orçamento doméstico, a tarefa culinária é parcialmente responsável pela independência do jovem. Ele anda de metrô sozinho, indo de Jabaquara ao Paraíso, e de lá à Avenida Paulista, onde gosta de flanar e “paquerar”. É ele também quem vai à padaria diariamente, comprar o pãozinho fresco para a família.

E sobre a experiência de ser modelo, o que Gabriel tem a dizer?

— Não tenho vergonha. Já fui modelo de cueca, numa campanha com o Bruno Gagliasso – conta. – Mas eu sou muito mais bonito do que ele – diverte-se.